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Pesquisa da USP revela que 53% das mortes violentas no Brasil envolvem álcool ou drogas

Marilia DiarioMarilia Diariojunho 5, 2026 1726 Minutes read0

Uma pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP) revelou que 53% das pessoas que faleceram em mortes violentas nas cidades de Belém, Recife, Vitória e Curitiba apresentavam álcool ou substâncias psicoativas no organismo, conforme análises realizadas logo após o falecimento. No total, foram investigados 3.577 casos, abrangendo as regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil. Os resultados desse estudo foram publicados na revista Toxics.

O biomédico toxicologista Henrique Silva Bombana, que é pesquisador de pós-doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP e primeiro autor do artigo, explica: “O objetivo foi gerar dados padronizados e comparáveis sobre a influência das substâncias psicoativas nas mortes por causas externas no Brasil”.

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A pesquisa incluiu a análise de álcool, uma variedade de drogas ilícitas e medicamentos psicoativos, utilizando protocolos rigorosos para garantir a precisão dos dados. A equipe tomou precauções operacionais para evitar perda de amostras devido à degradação. “No caso do álcool, se não houver um armazenamento apropriado das amostras, isso pode levar a resultados imprecisos”, esclarece Bombana.

“Estabelecer a relação entre a presença de substâncias e mortes violentas é uma tarefa complexa, especialmente em homicídios, pois estamos focando apenas na vítima e não no agressor. Mesmo assim, podemos associar altos índices de cocaína ao uso agudo da droga e também ao contexto social e econômico do mercado ilegal”, argumenta Bombana.

A pesquisa foi possível graças a um convênio firmado em 2020 entre a USP e a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad), com o intuito de mapear o vínculo entre o uso de álcool e drogas com as mortes violentas. As quatro capitais foram selecionadas considerando dois critérios principais: a gravidade do problema e sua relevância estratégica.

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<p“Esses locais foram escolhidos com base nas taxas de mortalidade por causas externas e sua posição estratégica nas rotas do tráfico de drogas”, detalha o pesquisador. Ele acrescenta que o Brasil funciona como um corredor internacional onde muitas vezes as drogas provenientes de outros países são distribuídas para os Estados Unidos, Europa, África.

A coleta das amostras aconteceu entre 2022 até meados de 2024. “Formamos equipes compostas por quatro pesquisadores em cada cidade para coletar amostras sanguíneas durante necrópsias. Essas amostras eram congeladas e posteriormente enviadas para nosso laboratório na USP, onde uma equipe de cinco pesquisadores realizava as análises”, explica Bombana.

Analisando o perfil das vítimas, observou-se que 90% eram homens, 56% tinham 30 anos ou mais e 67% faleceram em decorrência de homicídios. Este último dado é particularmente significativo quando comparado às mortes por acidentes de trânsito (15%) e suicídios (9%). No Norte e Nordeste, predominou o grupo identificado como “pardos” segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), enquanto nas regiões Sudeste e Sul, os “brancos” foram a maioria.

Dentre todas as vítimas estudadas, 53% testaram positivo para pelo menos uma substância psicoativa. As mais frequentemente identificadas foram: cocaína (30%), álcool (28%), benzodiazepínicos (7%) e cannabis (2%). “A incidência da cocaína foi notavelmente alta nos casos de homicídio, enquanto o álcool destacou-se nas mortes relacionadas a acidentes de trânsito. Os benzodiazepínicos foram os mais comuns em suicídios”, relata Bombana.

A presença do álcool em acidentes automobilísticos é uma questão antiga no Brasil. “Este tema vem sendo debatido há cerca de três décadas sem soluções efetivas. Apesar da legislação ser robusta, talvez falte um controle mais rigoroso sobre a comercialização do álcool. Alguns países têm normas muito mais restritivas quanto à venda”, reflete.

A pesquisa transversal realizada não permite estabelecer relações diretas entre causa e efeito. Trata-se de um estudo onde os dados são coletados em um único momento temporal, como se fossem uma fotografia daquela realidade.

No decorrer da pesquisa, os pesquisadores registraram o tipo de morte (como homicídio ou suicídio) junto ao resultado da análise toxicológica pós-morte (como presença de cocaína ou álcool). Essa comparação possibilitou medir prevalências – por exemplo: “53% apresentavam alguma substância no sangue” – além de identificar associações – como a cocaína sendo mais comum em homicídios enquanto o álcool prevalece em mortes no trânsito. Contudo, isso não comprova que a cocaína tenha sido a causa dos homicídios nem que o consumo alcoólico tenha levado aos acidentes automobilísticos; trata-se apenas da identificação de sinais consistentes de risco”, ressalta Bombana.

A equipe também analisou registros policiais relacionados aos homicídios e constatou que aproximadamente 85% das mortes ocorreram devido a ferimentos causados por armas de fogo. “Isso se deu em um contexto onde o governo federal flexibilizou regras sobre compra e porte dessas armas através de decretos, ampliando categorias autorizadas e reduzindo mecanismos regulatórios”, enfatiza Bombana.

No caso dos suicídios envolvendo benzodiazepínicos, surgem questões sobre automedicação e vulnerabilidade psicológica. O pesquisador levanta uma hipótese sem determinar causalidade direta: “O uso destas substâncias pode atuar como gatilho para transitar da ideação suicida para ações concretas”.

De forma geral, essa observação ilustra um padrão comum entre as diferentes modalidades de mortes violentas: o consumo dessas substâncias pode levar os indivíduos a ambientes mais perigosos ou comportamentos arriscados nas situações que resultam em acidentes automobilísticos.

A distribuição geográfica das ocorrências fatais revela padrões distintos entre as quatro capitais analisadas: Recife apresenta um maior número associado ao consumo exclusivo ou combinado com álcool; Vitória e Belém mostram uma concentração elevada relacionada ao uso ilegal; enquanto Curitiba destaca-se pelo predomínio do álcool sobre as drogas ilícitas. “O Brasil possui dimensões continentais com especificidades sociais, culturais e sanitárias diversas que influenciam nesse padrão”, comenta Bombana. Para ele, essa variedade deve guiar intervenções direcionadas para políticas públicas adaptadas à realidade local.

Perfil das vítimas e substâncias mais detectadas

Associação entre substâncias e tipos de morte

Intervenções e políticas públicas

Ciente das suas limitações como especialista em políticas públicas, Bombana defende que abordar este problema é mais eficaz quando se foca na saúde pública e redução dos danos ao invés da repressão pura. “Talvez a abordagem criminalizante conhecida como ‘guerra às drogas’ não seja ideal. O exemplo português demonstra que ao descriminalizar houve redução no número usuários, delitos menores, homicídios e overdoses. Embora existam diferenças significativas entre Portugal e Brasil quanto à extensão territorial e populacional, o modelo português sugere que uma política voltada à redução dos danos pode ser mais promissora.”

A pesquisa foi realizada pelo grupo “Álcool, Drogas e Violência” da Faculdade de Medicina (FM) da USP sob coordenação conjunta entre Bombana e a professora Vilma Leyton – coautora do artigo – contando com apoio financeiro da Fapesp, por meio da Bolsa concedida ao pesquisador Bombana.

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